INCLUSÃO









Desde que não existam danos biológicos graves (…) todas as crianças normais adquirem o que se chama uma «competência cognitiva».” (Bernstein: 1980)


"Os problemas de comportamento e violência na escola, bem como os de insucesso e abandono escolar, têm sofrido um contínuo agravamento, tornando-se recorrentes e relativamente transversais a todas as escolas portuguesas.
Esta é uma situação preocupante, que tem sido objeto de diversas medidas e iniciativas, tais como o Programa Escola Segura, Programa Territórios Educativos de Intervenção Prioritária, ou a criação do Observatório sobre a violência na Escola, projeto de investigação do CIES, financiado pelo Ministério da Educação.
Atualmente, a população estudantil, em Portugal, caracteriza-se pela diversidade de classes sociais, nacionalidades e grupos étnicos de origem. A proveniência de classes sociais mais desfavorecidas e a etnia e, consequentemente, a heterogeneidade sociocultural existente no meio estudantil, tem sido apontada como a principal causa para a violência, insucesso e abandono escolar.
Embora tenham sido enunciadas diversas teses relativas a este fenómeno, ainda não foram encontrados métodos ou fórmulas indubitavelmente eficazes na resolução do problema.
De acordo com as Teorias da Reprodução de Bourdieu e Passeron (1964), a Escola reproduz as desigualdades sociais através de mecanismos subtis de dominação. Estes são mecanismos de ordem cultural que produzem a seletividade social do insucesso escolar.
(...) Bernstein (1980: p. 21) afirma que “(…) o processo de transmissão na escola, o currículo, as práticas pedagógicas (…) estão sempre regulados pela classe social. A escola constrói discursos aos quais as crianças de classes baixas não podem aceder. (…) Significa isto que as crianças das classes baixas estão excluídas pelo código escolar, são discriminadas e afastadas pelo código escolar.”
Seabra (2011) afirma “No início do ano os professores formam expectativas diferenciais acerca do comportamento e da realização dos estudantes (…) os professores comportam-se diferentemente com os vários estudantes.
Este tratamento diz aos estudantes algo acerca da maneira como se espera que eles se comportem na sala de aula e desempenhem as tarefas académicas. (…) Provavelmente ele afetará os seus autoconceitos, motivação para a realização, níveis de aspiração e interações com o professor. Geralmente estes efeitos complementarão e reforçarão as expectativas dos professores, de modo que os estudantes acabarão por se conformar com estas expectativas mais do que o fariam normalmente.”
Através da análise das perspetivas dos diferentes autores, pode dizer-se que os modelos, códigos linguísticos e currículos, escolares não se encontram adaptados a um conjunto heterogéneo de alunos, mas apenas aos provenientes das classes mais favorecidas, os quais têm níveis culturais mais elevados e um maior acesso a diferentes fontes de cultura e saberes. Enquanto os alunos das classes mais altas encontram na escola uma continuidade em relação ao ambiente familiar, para os alunos provenientes das classes mais baixas dá-se uma rutura entre o ambiente e saberes familiares e a escola.
Por outro lado, parece existir, por parte da maioria dos professores, uma expetativa negativa relativamente ao sucesso escolar dos alunos das classes mais baixas, expetativa essa que se afigura revestida de preconceitos, ou pré-conceitos, que irão influenciar de forma negativa os desempenhos escolares desses alunos, pois, maioritariamente, acabam por confirmar essas expetativas, adotando ou reforçando os comportamentos ou insucessos que, também, o professor acaba por lhes transmitir esperar deles.
O documento da OECD, de 2011, define como resilientes os estudantes provenientes das classes mais desfavorecidas que, contra todas expetativas, são bem-sucedidos na escola, define a motivação dos estudantes como fator determinante para o seu sucesso escolar e sugere que estes deverão ser objeto de estudo, pois que através deles se poderá encontrar novas formas de diminuir o insucesso escolar dos alunos provenientes dessas classes sociais.
Se o que a Escola pretende fazer é passar uma mensagem, ou conjunto de mensagens, constituída pela agregação de saberes que integram, ou estão subjacentes, aos currículos escolares, então, no que se refere aos alunos provenientes das classes mais desfavorecidas, parece haver uma grave falha de comunicação, por parte da Escola.
De acordo com a definição de aluno, de Becker, como «cliente», poderíamos definir o professor como um profissional de atendimento ao público, ou mesmo como um «vendedor». Neste caso, um «vendedor» de ideias, conhecimentos e saberes. Para que seja possível ao professor ser um bom «vendedor» de conhecimentos e saberes e fazer chegar a mensagem da forma mais eficaz e adequada aos seus «clientes», a Comunicação, enquanto conhecimento académico, deverá fazer parte da sua formação pedagógica.
A comunicação eficaz pressupõe que o recetor da mensagem, neste caso o aluno, reconheça o código, para poder descodificar a mensagem e dar feedback ao emissor. A comunicação será tanto mais eficaz, quanto mais identificado, com o conteúdo da mensagem, o recetor se sinta.
Neste sentido, Feliciano H. Veiga (1999) propõe novas práticas comunicacionais para professores e pais, através da análise e comparação do seu Modelo Comunicacional Eclético com o Modelo de Intervenção Psicodinâmica, o Modelo Humanista e o Modelo de Intervenção Transacional.
Feliciano H. Veiga dá especial destaque, neste seu estudo, à comunicação interpessoal, à escuta ativa, à autorrevelação e autenticidade, ao feedback ou à confrontação.
Não existe uma receita para solucionar problemas com o grau de complexidade que a violência, o insucesso e o abandono escolar têm. Ainda que os professores tivessem uma formação adequada, ao nível das estratégias de comunicação ou das abordagens baseadas nos saberes da psicologia, haverá sempre situações limite, para as quais dificilmente se conseguirá encontrar soluções adequadas.
Contudo, tudo parece indicar que, se olharmos os alunos como “clientes” e usarmos estratégias utilizadas em Comunicação e Formação, o grau de proximidade e entendimento entre alunos e professores tenderá a elevar-se, gerando sentimentos de pertença e integração no meio escolar, por parte dos alunos, o que irá contribuir para um melhor desempenho e para o desenvolvimento cognitivo desses mesmos alunos.
A participação dos pais e da própria comunidade envolvente no meio escolar, criando interações de diversas índoles, afiguram-se como peças fundamentais para o sucesso escolar e para o bem-estar da comunidade.
A partilha e valorização de saberes ou costumes dos grupos com diferentes nacionalidades, origens sociais ou etnias, ou o estabelecer dos primeiros contactos com diferentes profissões, artes e ofícios, são elementos que podem contribuir para desenvolver sentimentos de pertença e a integração no meio escolar por parte dos alunos que, normalmente, têm mais dificuldade nessa mesma integração.
Por outro lado, essa troca de saberes pode dar origem à criação ou desenvolvimento de novos projetos escolares de turma, ou, porque valorizados os saberes, costumes, artes e ofícios, normalmente não elogiados ou entendidos, despertar nos alunos novos interesses ou motivação para a aprendizagem."
"Educação e Comunicação - Projeto-piloto de intervenção Escola E.B. Pintor Almada Negreiros"
Teresa Varela (2012)- Mestrado Educação e Sociedade - ISCTE
Convido-os a visualizarem "O Manel", um pequeno filme, o qual materializa grande parte das ideias expostas acima.
Nele poderão constatar como é possível transformar um aluno desinteressado, mal comportado e, por vezes, até agressivo, que, aparentemente, é incapaz de adquirir as competências e um nível de aprendizagens adequadas e/ou requeridas para a sua idade e nível de escolaridade, num outro que participa ativa e interessadamente em todas as atividades escolares, integrando-se no meio, participando nas brincadeiras, fazendo amigos e ajudando colegas.
Para que fosse possível dar-se esta transformação, bastou que o Manel sentisse que os seus saberes e capacidades eram valorizadas, que as suas opiniões eram tidas em conta. No fundo, que ele era um elemento importante naquela comunidade escolar.

 
Não é minha intenção, com este excerto do meu projeto, sugerir que se devem alterar os conteúdos ou projetos educativos das escolas e os diferentes projetos curriculares das turmas, mas, sim, propor uma reflexão acerca da alteração de metodologias.
A alteração das metodologias, que proponho, seria feita através do recurso a diversas técnicas e estratégias de Comunicação, usadas em publicidade, marketing, relações públicas e vendas, e técnicas e métodos pedagógicos utilizados em Formação e, ainda, pelo acompanhamento realizado por psicólogos.
A aplicação destas metodologias implica a criação de equipas multidisciplinares que, através de projetos específicos, atuem em conjunto com os professores, para fazer da escola não só um local de aprendizagem, mas, também de integração social, valorização pessoal e partilha de conhecimentos extracurriculares, perspetivando-se, assim, não só nos conteúdos específicos dos projetos curriculares de turma, mas, também, nos saberes, tradições ou hábitos dos alunos e suas famílias, os quais poderão certamente contribuir para a melhor compreensão de muitos conteúdos curriculares, para a aquisição de novos conhecimentos e para a socialização e integração de alunos, de origens heterogéneas, no meio escolar e na sociedade em geral.
Todos sabemos que a qualidade do nosso trabalho, capacidades e empenho aumentam em função daquilo que acreditamos em nós próprios e no trabalho que desenvolvemos. 
Para tal, muito contribui o facto de sentirmos que a nossa opinião é tida em conta, que o nosso trabalho e saberes são valorizados e que nos encontramos integrados nos grupos em que interagimos.
 Se isso é verdade para nós adultos, também o é, por maioria de razão, para as crianças e  adolescentes, pois que estes se encontram em fase de crescimento, afirmação pessoal e definição de personalidade.

Opinem, critiquem sugiram...Somos todos membros ativos da comunidade e não seus espetadores


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