O FATOR HUMANO VS DANOS COLATERAIS

Todas as relações humanas, sejam de que tipo for, têm uma relação estreita com o poder.
Aqueles que detêm o poder tanto podem ser familiares próximos, patrões ou chefes, líderes e/ou elementos de grupos de amigos, claques ou gangs, como líderes políticos ou religiosos, forças policiais, militares ou grupos de rebeldes, ou poderosos grupos económicos.
Aquele, ou aqueles, que detém o poder tem a habilidade e/ou capacidade para, pela força, coação, manipulação, pressão, indução, aliciamento ou ilusão, obrigar, condicionar, converter ou aliciar outros a fazerem exatamente aquilo que ele pretende.
Sempre que aqueles que detêm o poder são confrontados com qualquer tipo de oposição, inicia-se uma “guerra”, quantas vezes sem olhar a meios, formas ou consequências.
Em todas as “guerras” existem vítimas, as quais tanto podem ser os filhos, os subordinados, uma etnia ou grupo religioso, ou um grupo indiferenciado, como um povo ou uma Nação.
Para além das vítimas, existem ainda os danos colaterais, os quais podem ser sofridos tanto por coisas, como por qualquer ser vivo.
Os danos colaterais são todo e qualquer malefício causado a objetos ou seres vivos, do reino mineral, vegetal ou animal, diferentes do alvo pretendido.
No momento em que qualquer um de nós é identificado como um dano colateral, deixa de existir, ou ter importância, o Fator Humano, o qual passa a ser, apenas, reconhecido como o objeto de um incidente inevitável.
Vem isto a propósito do avião da Malaysian Airlines recentemente abatido, da newsletter do “Observador, que aqui transcrevo, e do quão é imperativo que nunca percamos de vista a importância do Fator Humano, lutando para que jamais seja associado ou percebido como um “Dano Colateral”.


"Chamava-se Karlijn Keijzer, tinha 25 anos, e ia de férias para a Indonésia com o seu namorado. Era apenas uma entre 298 – tantas quantas as vítimas do voo 17. Estava a fazer o doutoramento em Química na Universidade de Indiana, nos Estados Unidos, onde era conhecida pela sua capacidade de liderança, até como atleta da equipa de remo. Tinha muitos sonhos, como todos na sua idade, e trabalhava numa linha de investigação que poderia ajudar os que sofrem de cancro ou Alzheimer.

Esta é uma das pequenas histórias que o New York Times conta sobre as vítimas do voo da Malaysian Airlines, agora que as começou a apresentar uma a uma. É um daqueles trabalhos jornalísticos que fazem a diferença porque dão dimensão humana a uma tragédia que podia ser tratada apenas pelos números (e por isso o Observador lhe deu destaque na notícia em actualização permanente que mantemo desde o acidente). Não é a primeira vez que o NYT faz este tipo de trabalhos. É inesquecível, por exemplo, o que fizeram quando contaram as histórias de todas as vítimas dos atentados do 11 de Setembro.

Ter noção de que todas as tragédias têm um rosto humano é fundamental para comprendermos o seu alcance. E, neste caso, o seu alcance pode ir bem para além do de um acidente.

No Observador temos seguido com detalhe o noticiário sobre o abate do avião, contado algumas das suas histórias humanas, incluindo as histórias mais positivas, estando atentos ao evoluir do jogo geopolítico. Também já publicámos duas análises sobre as consequências deste drama: Selvajaria, de Manuel Villaverde Cabral eDo céu caem anjos, de Paulo de Almeida Sande. Como se nota no primeiro destes textos,
A geopolítica não acabou; pelo contrário, irrompeu com nova força. Porém, já não se divide entre comunistas e capitalistas, mas sim entre democracias desgastadas como as da Europa e dos próprios USA, por um lado, e por outro, uma vasta série de novos-ricos que buscam, sem olhar a meios nem a regras, um poder político equivalente ao seu crescente peso económico, como sucede desde a capitã China e a frustrada Rússia até aos confins da globalização.

Na imprensa portuguesa encontrei mais duas análises a merecer destaque, ambas sublinhando o facto de o atentado ser um factor de profunda alteração dos dados no conflito ucraniano.Bernardo Pires de Lima defende no Diário de Notícias que há “um antes e um depois” e Jorge Almeida Fernandes argumenta no Público que se trata de um momento de “viragem num conflito fora de controlo”. Repare-se na sua conclusão:
Repita-se: é uma situação clássica em que a prudência pode levar a uma negociação e a um compromisso entre dois projectos estratégicos opostos. Ou, inversamente, a um cenário em que os erros de percepção dos vários actores poderão precipitar uma crise internacional de grande dimensão. 

Passando a textos da imprensa internacional, aqui ficam alguns destaques.
Timothy Garton Ash (um dos autores meus favoritos, aviso desde já) escreveu no New York Times sobre aquilo a que chamou a “doutrina mortífera de Putin”, pois a sua chamada “proteção” dos russos da Ucrânia mostra estar a ter consequências fatais:
It seems plausible already to suggest that a regular army (whether Ukrainian or Russian) would usually have identified the radar image of a civilian airliner flying at 33,000 feet, while a group made up solely of local militants (even ones with military experience) would not ordinarily have had the technology and skill to launch such an attack without outside help. It is precisely the ambiguous mixtures created by Mr. Putin’s völkisch version of the “responsibility to protect” that produce such disastrous possibilities. He subverts and calls into question the authority of the government of a sovereign territory, and then blames it for the result.
Na revista Time, Robert Goyer, director da revista especializada Flying, explica como é que processará a investigação e não duvida de que esta encontrará pistas concludentes: “once they find the chemical signature of the device, they will be able to tell with great certainty what kind of explosive caused the damage and very likely where that charge was manufactured and by whom.” A The Economist argumenta que a evidência já conhecida deixa pouco lugar para dúvidas: “It all suggests a tragic mistake made by reckless incompetents who may or may not have been receiving direct help from Russian handlers, who may or may not have been operating with official approval”.
Daily Beast teve uma repórter no local e o retrato que ela faz é impressionante, sobretudo porque falou com crianças que viram corpos a cair do ar. Nunca o esquecerão, garante a jornalista.
No Washington Post, Anne Applebaum(mais uma vez, uma autora que muito admiro, autora de algumas obras fundamentais sobre o comunismo na Europa de Leste e sobre o Gulag), defende a ideia de que este é um momento de definição também para o Ocidente: “When the Libyan government brought down Pan Am Flight 103 over Lockerbie, Scotland, in 1988, the West closed ranks and isolated the Libyan regime. Can we do the same now — or will too many be tempted to describe this as a “tragic accident” and to dismiss what will inevitably be a controversial investigation as “inconclusive”?” Não posso estar mais de acordo.
Finalmente, algo totalmente diferente. A New Republic fez uma resenha das teorias extravagantes que circulam nos meios de informação russos, por regra controlados por Putin. Até houve quem escrevesse que o avião já levantara voo cheio de cadáveres. Seria hilariante se não fosse trágico.

A terminar, uma sugestão especial: por estes dias, sempre que se fala da Rússia ou, de uma forma geral, dos países do Leste Europeu, é sempre obrigatório ir consultando o blogue Da Rússia, do jornalista José Milhazes. Sempre muito bem informado, Milhazes faz a diferença e coloca sempre questões pertinentes. Por exemplo: “Moscovo afirma ter um eficaz sistema de defesa antimíssil e não conseguiu determinar de onde e por quem foi disparado o míssil fatal? Porque é que o Kremlin está calado?”

Boas leituras.

José Manuel Fernandes"

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