DESLOCANDO O FOCO


A Bolsa, as suas aberturas em alta, ou em baixa, as cotações, índices e riscos, aliados ao aparente estado de loucura, ou caos, em que são feitas as transações,  sempre foi para mim qualquer coisa de misterioso, mesmo assustador, bem mais difícil de entender do que o nascimento do Universo.
É sempre com grande perplexidade que constato que os valores das ações das empresas, que têm dimensão suficiente para ser cotadas na Bolsa,  muito pouco, ou nada, têm a ver  com as reais situações das empresas, a sua solvência, ou insolvência, volume de vendas, ou crescimento, mas antes dependem das "dores de barriga"  do Presidente dos EUA, das "lombalgias" do Imperador Japonês, das "enxaquecas "dos sheiks árabes do petróleo, ou da "menopausa" da Chanceler alemã.
Esse mundo do dinheiro virtual que, aparentemente, obedece a leis aleatórias, arbitrárias e indecifráveis, tem o poder de arruinar países, empresas e pessoas, impunemente e de uma forma amoral.

Confrontos na Ucrânia


Estranhamente, ou talvez não, os recentes confrontos na Ucrânia e o referendo na Crimeia, parecem não ter tido qualquer impacto nas transações efetuadas nas principais Bolsas, nem afetado, significativamente, a alta, ou baixa, das suas aberturas.
Este facto deixou-me a cismar... 
Apraz-me partilhar convosco as questões e interrogações da minha cisma:

  1. O Mundo Ocidental tem estado a viver uma das maiores crises financeiras, económicas e do trabalho de que há memória;
  2. Os países mais poderosos e ricos têm conseguido encontrar recursos, ou artifícios, para evitar ser atingidos violentamente pelas consequências da crise;
  3. Os países com bases económicas, industriais, tecnológicas e cientificas menos sólidas, logo detentores de um diminuto poder de negociação, têm visto as suas economias e mercados de trabalho desmoronarem-se drasticamente, ficando cada vez mais dependentes das decisões e idiossincrasias dos grandes;
  4. A Ucrânia submerge com uma guerra entre irmãos, em que não se percebe bem de que lado se encontra a razão, tornando-se evidente de que a mesma serve interesses duvidosos e ocultos, que pouco, ou nada, têm a ver com os ideais ou objetivos dos ucranianos, mas que definitivamente a afasta da corrida europeia;
  5. A Rússia, que perdeu parte da sua "voz" com o desmantelamento da União Soviética e o fim da Guerra Fria, parece querer agora emergir de um certo estado "vegetativo" e reclamar o direito de tornar a gerir o seu "feudo", como uma grande potência;
  6. A Crimeia decide fazer um Referendo, para voltar a fazer parte da Rússia, e os países do Ocidente reagem, com alguns discursos grandiloquentes,  apenas para não perder a face;
Referendo na Crimeia


Pergunto-me, quem ateou o "fogo" na Ucrânia?

Os grandes da Europa para desviar o foco da crise?
A Rússia almejando voltar a ser uma grande potência?
Os EUA, que dando um "empurrão" à Rússia, a transformam em mais um parceiro na divisão dos poderes do Mundo, minimizando assim as consequências da ascensão da China?


Os mortos, os feridos, as famílias destroçadas, as economias destruídas, o desemprego em ascensão, são, neste contexto, coisas de somenos importância. Afinal, não passam de danos colaterais.

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